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11 de agosto de 2011

estrenho conhecimento (II)


Percebi que era inócuo, completamente meigo e sereno. Não havia razão para ter receio, medo. Era ele! Eu sabia! Tinha que ser ele!
Quando percebeu que eu decifrara as encriptações do seu olhar afastou-se, não me deixou chegar-lhe. Durante 5 dias vivemos assim, alimentando-nos apenas com gestos e bebendo apenas longos rios de olhares. Ao fim do quinto dia fartei-me daquela rotina e aproximei-me mais do que me era pedido. Gritei-lhe para não fugir! Mas ele lacrimejava. Era inútil continuar a tentar. Deitei-me naquele chão pálido. Virei as costas para ele. Mas ele continuava a lacrimejar.
Foi então que não controlei a minha raiva, a minha sede de palavras e agarrei numa das cadeiras e, com a força de um gigante, atirei-a contra a parede cinzenta. Desfez-se. Percebi que ele tinha ficado boquiaberto com a minha reacção espontânea e nada regular. Não esperava que ele balbuciasse qualquer palavrinha. Desejava ardentemente apenas que com o meu ataque tresloucado que conseguisse abrir um buraco para fugir daquele cubículo que já se tornara um inferno emocional a adicionar ao turbilhão de sentimentos que pairava no ar. Em vez de continuar mudo, como estava constantemente, olhou-me nos olhos e com a maior das tranquilidades disse: - E agora? Onde te vais sentar quando tivermos a nossa grandiosa conversa? Respondi-lhe à letra: - Pensei que nunca esse momento chegaria! E este chão frio que faz as delicias do tempo quente serve para eu me sentar e prestar toda a atenção às palavras semíticas que raramente saem desses teus poros.
Calou-se novamente, como já seria de esperar. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH, como aquelas suas reacções me davam conta da cabeça.
Sentei-me no chão, já que a cadeira estava feita em mil pedaços, cheguei-me para um dos cantos do cubículo. Olhei o tecto assim como quem olha as estrelas num céu estrelado. E comecei a vaguear por pensamentos inconstantes. Relembrei os transeuntes aos quais não prestamos nenhuma atenção, mas que cada um tem uma história de vida mais atribulada do que o outro. Aquelas caras todas, caras tão fáceis de esquecer. Será que o indivíduo que me aprisionara naquela sala seria uma dessas banais caras? Lembrei-me, também, que durante todo aquele tempo nunca o tinha visto sorrir, apenas observei que estava nervoso, impaciente, triste e doente emocionalmente. Ouvi-o pronunciar qualquer som, e voltei-me imediatamente para perceber o que era. E ele repetiu novamente: - Em que estás a pensar?
Tentei ser breve nas minhas palavras: - Estava a pensar em ti. E ele retorquiu: - Em mim? Desperto assim tanto o teu interesse? Tornou-se irónico: - Claro que sim, se vou morrer aqui fechada gostaria apenas de saber quem me acompanha nestes últimos tempos. A sua expressão serrou-se. Parecia que temia aquele tema: a morte. Mas mais cedo ou mais tarde viria. (Só de saber que foram os meus alucinantes pensamentos a levarem-me para ali.)
Necessitava de um sinal, qualquer coisa que me mostrasse que valeria a pena continuar a viver. Continuar a respirar. Ainda que fosse respirar a dor da pessoa que se encontrava na mesma "cela" que eu!
Tentei arduamente revirar a minha mente para procurar aquela cara. O meu ser dificultava em muito essa tarefa. Sabia que ele estava à espera que eu o reconhecesse, mas como era isso possível? Pensei para mim mesma "Deixa-me levar-te daqui, deixa-me trocar essa dor por sonhos, sei que doí, e doí muito. Mas a vida sem dor não era vida, para sabermos que existimos e que temos coração é preciso haver dor. Tu não és excepção! Eu quero e preciso de fugir daqui, deste fogo que me queima os sentimentos. Não quero viver enclausurada na escuridão. Foge comigo, deixa-me mostrar-te o meu mundo!" Depois deste desabafo para comigo mesma ele olhou imediatamente para os meus olhos e chorou, chorou como eu nunca o tinha visto chorar. Abraçou-me e disse-me através dos seus pensamentos: "O mundo é uma selva, é cada um por si. Estava à tua espera porque és a única que consegue ter a cabeça erguida para lutar contra a solidão, contra a guerra de sentimentos, contra a escuridão, contra os pesadelos. Contra tudo!"
E a partir desse momento criou-se um elo, uma ligação entre nós. Começamos a comunicar através de pensamentos.
Passaram dois anos...

2 comentários:

Catarinaf disse...

os pretos são os meus favoritos, são lindos e têm megas olhos :p

Marta Ferreira disse...

love this (LL)
estou a seguir*